Liberdade

Liberdade

domingo, 20 de dezembro de 2015

Alberto



Há cinco anos atrás num dia de maio Alberto deixou cair a caneta no chão e afastou-se da mesa. Naquele instante, finalmente uma ideia o vencia após anos de resistência. A ideia fora tão feroz que o golpeava sem piedade aos domingos em meio a reuniões familiares, nos trajetos de ônibus quando solitário, na meia luz do quarto depois de uns drinks. Pobre rapaz, derrotado depois de bravos vinte e cinco anos. A fulminante ideia o fez decidir: a partir dali não seria um poeta.

Na manhã seguinte à trágica decisão, por coincidência caiu uma tempestade enorme. Ele, que precisava devolver um livro na casa de uma amiga, teve a maior dificuldade no caminho porque de uma forma estranha as poças de água que se formavam não tinham nenhuma graça, eram somente obstáculos. No fim de semana seguinte recusou um convite feito por seus colegas de faculdade para enveredar pela noite, beber algumas cervejas geladas e dar risadas em meio a conversas ébrias. Não foi, não viu a menor graça. Quando o mandaram uma foto da turma em pleno nascer do sol para que ele visse a diversão que estava perdendo Alberto só pensou no desconforto e no mau hálito que deviam estar todos ali.

Os meses que se seguiram foram piores. A vida do rapaz, que antes era leve e alegre, foi mudada por ares de concreto. Nas noites não tinha mais pensamentos sobre Julietas, nenhum romance a lhe acelerar o pulso. Quando o assunto era mulher ele só conseguia generalizá-las. O que movia sua mente agora era a ambição. No quarto pilhas de livros didáticos apagavam o que antes abrigava Drummond. Com a ajuda do pai, conseguiu emprego numa empresa conceituada e a rotina passou a ser quase ter uma overdose de café por dia, ler por cima colunas de revistas populares no intervalo do almoço, em casa ligar a tv. para assistir programas policiais e manter um exemplar do jornal do dia nas mãos que outrora folhearam Quintana. Adquiriu um andar ligeiro e começou a temer todos aqueles que julgava não serem iguais a ele. Ao fim do dia exausto caía num sono sem sonhos. Num fechar de olhos, o alarme lhe gritava: "Não há tempo!"

Hoje, quando um antigo amigo o para na rua e tenta puxar assunto em vez de palavras regadas a poesia ele é seco e apressado.
— Como vai o coração Alberto?
— Saudável, obrigado! - responde bruscamente encerrando o assunto.

Cristina Braga

(Texto atualizado em 21/12/2015)

Alberto, essa musica é para você! Quem sabe ela te inspire melhor que uma ideia.






terça-feira, 13 de outubro de 2015

Farsa verdadeira?




Breakfast at Câmara dos Deputados


Cada um à sua maneira é uma farsa. Uma farsa verdadeira como a personagem de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo ou uma farsa escrachada como Eduardo Cunha. Nós, os humanos somos mentirosos compulsivos, até mesmo seus pais são, sorry! Mas isso não significa algo puramente negativo. Uma mentira que conto para mim mesma é diferente de uma mentira que conto a alguém, ou que conto para milhares de brasileiros, por exemplo.

Para Holly Golightly (personagem de Audrey) a vida é uma imensa bagunça onde ela esbanja charme e beleza para conseguir o que quer. Manipula homens com a mesma habilidade que passa batom antes de receber uma notícia ruim e acredita a sua maneira que nenhum mal lhe acontecerá se ela estiver na luxuosa loja de joias Tiffany & Co.

No caso do Cunha a vida é um grande tabuleiro onde ele move peças para conseguir o que quer, tal como aprovar medidas que favoreçam a seus interesses e a terceiros que compõem seu network. No momento atual, o Presidente da Câmara tem sua família sendo investigada por possuírem contas na Suíça e já foi acusado de usar a Assembléia de Deus para lavagem de dinheiro. No caso dele, o "passar batom" é substituído por chamar atenção para sí como oponente da Presidenta da República para assim ganhar apoio de outros descontentes e acredita piamente que nenhum mal lhe acontecerá se continuar em seu cargo atual, isso claro, com a benção divina.

Assim como vamos descobrindo no decorrer do longa saído do livro de Truman Capote quem é de verdade a mulher fútil e determinada que em algumas vezes amamos, e em outras odiamos tamanho seu egoísmo e foco em casar com um homem rico deixando de lado seu gentil amigo Paul, também começamos a saber a fundo quem é o homem que realiza Culto na Câmara Estado não era para ser laico gente? e que já foi pupilo de PC Farias (para quem não tem memória dos anos noventa foi uma pessoa de luz que movimentou mais de US$ 1 bilhão dos cofres públicos num esquema de corrupção quando tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Melo, aquele outro lá boa peça que foi presidente e saiu por impeachment, mas está aí na política até hoje provando que o povo adora uma mentira e que o dinheiro desse mesmo povo é ótimo para comprar uma Lamborghini).

Mentir por mentir, fico com a arte, onde tudo é possível dependendo somente de inspiração e criatividade. Sem duvidas, a arte é como um abrigo, igual ao que a Tiffany representa para Holly e o que a Câmara representa para o Cunha.



"Mentiras, mentiras, mentiras
Quando você vai aprender?" 
-Lies, Glen Hansard
(Abaixo musica na integra, para ver com legendas tem que habilitar na configuração do vídeo.)

Lies da trilha sonora de Once

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

#Partiu

Foi numa segunda feira em que eu seguia rumo ao trabalho atrasada como de costume, tinha acabado de sair da rua lá de casa quando aconteceu... O homem alto, magro que caminhava apressado na minha frente desapareceu feito uma abdução sem claridade ou qualquer outro efeito especial digno de Hollywood, imagine um corpo inteiro se esvaindo sobrando apenas roupas que cairam lentamente ao movimento do vento. Achei estranho, mas estava tão tarde que não podia perder tempo tentando entender, era mais um obstaculo entre mim e a batida do meu ponto, por isso continuei.

Atravessando a avenida, cheguei a parada encontrando mais roupas pelo chão. Avistei ao longe o ônibus que faz rota pela empresa vindo, dei sinal e esperando que o automóvel parasse, aconteceu novamente... Logo o motorista desapareceu, deixando o coletivo sem controle para se chocar com um poste e mesmo que não tenha causado um acidente de grandes proporções, me convenceu a voltar para casa por mais tentador que fosse ir em frente. "Ah, que maravilha pegar um ônibus vago e até ir sentada no caminho até o trabalho. Bem, tinha que ser milagre mesmo”, penso.
-O que está havendo? Gritou uma moça ao longe desesperada segurando roupas infantis.
-Deve ser o arrebatamento...mas segunda-feira não é dia de subir ao céu, gente! Respondi automaticamente em tom bravo desprezando o olhar assustado dos demais presentes ali.

No retorno para casa, meu pai não está. No quintal seu vestígio se resume a  uma camisa listrada por cima de um short cinza onde o meu gato agora se aninha. Nossa, ainda bem que eu lhe disse um "eu te amo" antes de sair e fui presenteada por um sorriso acompanhado por seus olhos verdes brilhantes. Depois de um suspiro, a ficha cai, estou sozinha - sem ofensas, gato!- pego o celular para começar a discar números atrás de pessoas que assim como eu ainda poderiam estar por aqui, mas percebo que o sinal de internet está ótimo e presumo ser um momento propicio para tirar uma selfie.  A foto com a legenda "#PartiuApocalipse" só tem duas curtidas e eu nem entendi já que o filtro tinha ficado uma maravilha.

Chateada começo as ligações sem sucesso, só quem me atende é um amigo que me fala que está exausto e manda que eu ligue depois, que aquilo não era hora. Recusada, seguro em minhas mãos uma fatura de cartão de crédito que me faz sorrir por não ter que pagá-la mais, a minha frente a Tv mostra imagens de pessoas desaparecendo pelo mundo, mas nada de Friends, nada de um filme interessante. Vou para calçada.
No meio da rua Dona Eva está aos gritos inconformada porque a Marília "A Transexual" como ela era chamada por uns, foi arrebatada.
Nessa hora só me restou esbravejar:
- Que merda! Ninguém online no Whatsapp!

Cristina Braga



Oh Deus Tecnologia em que momento tu nos fizestes escravos?

terça-feira, 28 de julho de 2015

Oração dos Dias Finitos




Desejo ser livre
Abrir as janelas, as asas, os olhos.
Dançar em volta da fogueira feito mulher em plenitude.
Cuspir o que penso ou vou arruinar essa vida.
Que eu confronte o que não faz sentido
Em vez de escolher a cegueira completa
Que minha voz ecoe declamando versos que julguem malditos
Em vez de repetir discursos midiáticos
Que eu não seja cúmplice, nem o opressor
Que no girar da garrafa e passar dos anos eu encontre um caminho
E o mude se perceber andar em círculos
Que eu não modifique para o mal o lugar por onde passe
Nem transforme homens conforme minha vontade
Saiba respeitar os limites e os devaneios de quem atravessar minha vida
Que não entenda quando a maioria rir de alguém pelo que ele parece
Pois não há interesse em ser do clube dos que são rasos
Nem disponibilidade para estar na lista dos que determinam
Que minha razão seja luz mesmo quando tudo ao redor for escuro
Que eu faça do amontoado de memorias que sou uma invenção interessante
E que eu saiba reinventar o amor quando ele já estiver gasto
Que eu consiga enxergar realidade além dos recortes pelos quais a vendem
E nunca perca a fé na educação, nem o vislumbre pela música.
Que a mente seja leve e sã sem perder o fascínio pela loucura.
Que confirme minha existência quando possível
E que na impossibilidade eu não faça nada que me enoje
Que não me acostume a violência cuja bandeira é levantada com tamanho orgulho
Nem esmoreça sob o latido daqueles que defendem fascismo sem chamá-lo assim
E quando a vida for fria que eu desenhe abrigo
Que faça das dores degraus e leve o que preciso comigo
Mesmo que aquilo que preciso esteja presente só no coração
Desejo o tatear dos livros
O encanto pelo universo
O apreço incomparável pela vida.
Que não me cure do vício em aprender
Nem passe a ânsia por ensinar
Sobretudo haja gratidão, gentileza e capacidade de duvidar.

Assim seja


E agora o que você precisa pedir a si mesmo?


Finalizo com a musica que me muda todas as vezes que a ouço. Guaranteed composta por Eddie Vedder que fez toda a trilha do filme Na Natureza Selvagem cujas imagens compõem o vídeo. Essa canção é  para ouvir, saborear e internalizar devido seu teor inspirador.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O Tempo Não Para?


A vida não é como nos video games que se você está indo mal é só reiniciar que na próxima partida consegue dar o gás no inicio e vai se dando bem porque já decorou de onde o opositor vai sair igual a God of War e todos os outros jogos. Não, na realidade não há segundas chances, nem há cogumelos para nos salvar como no fenomenal Super Mario Bros. com toda aquela jogabilidade. Nasceu, ta valendo irmão e não importa o que você faça, você só parte de onde está porque o passado só existe na tua cabeça.


Ah, mas não fala assim do passado né? Tem muita gente especial lá... É eu sei, minha saudade sabe, mas a verdade é que para mim falar passado, presente ou futuro é somente usar palavras de um idioma que amo. Não acredito em tempo, acho que se trata apenas de uma armadilha para nos limitar e diante da historia da humanidade vemos muitas tentativas de sabotagem a essa ideia como os egípcios com suas piramides e múmias ou como a criogenia hoje. Na cultura Pop musicas como O Tempo Não Para de Cazuza e filmes como De volta Para o Futuro, Feitiço do Tempo e o mais atual No Limite do Amanhã (com o meu querido Tom Cruise) fazem sucesso porque nos fascina a ideia de mudar nossas vidas. Mas o tempo realmente não para e não será possível mudar algo que já aconteceu? Eu adoraria mudar muita coisa na minha vida. Você não?





Diferente do que a letra simbólica de Cazuza propõe Einstein provou com a Teoria da Relatividade que o tempo é diferente sob uma velocidade diferente e que alcançando a velocidade da luz o tempo pode sim ser parado fazendo com que as pessoas numa espaçonave não envelheçam enquanto aqui na Terra se passem anos. Bem, eu acredito que um dia iremos conseguir manipular o tempo e viajar para onde quisermos, mais isso se não nos destruirmos ou se não destruirmos nosso planeta antes...pior que as chances dessa auto destruição são imensas. Se um dia conseguiremos viajar por varias épocas, isso só ocorrerá quando já tivermos ultrapassado o nível 1 da escala de Kardashev (Nikolai Kardashev foi um astro físico russo que desenvolveu um sistema de classificação baseada na forma de produção, consumo e reciclagem de energia para classificar as supostas diversas civilizações) e isso nos exigirá um nível de consciência elevadíssimo.


No mundo atual que está cheio de pessoas que agridem o outro por uma opção sexual, por torcer time diferente, que estupram pelo simples fato de conseguir isso, que desejam que o mal aconteça a quem difere de suas idéias, que matam em nome de religião, que invisibilizam pessoas por diferenças raciais, que odeiam gratuitamente e não sabem pensar de forma responsável coletivamente estamos longe de uma evolução como essa. Ah vai, do homo sapiens até aqui evoluímos muito e evoluiremos muito mais quando passarmos a ser o povo cuja sociedade tem uma distribuição de renda justa, cuja educação seja de qualidade desde a infância, cujo principio do "ter uma atitude limpa com alguém é ter uma atitude limpa consigo mesmo" seja praticado e entre muitos outros fatores complexos. Einstein estava certo, mas ainda assim cabe a nós fazermos o tempo valer a pena.

Cristina Braga





Times Like These do Foo Fighters

"Para aqueles de nós que acreditam na física, esta separação entre passado, presente e futuro é somente uma ilusão.”
Albert Eistein

terça-feira, 14 de julho de 2015

Alimentos Detox ou o Diâmetro de Plutão?



Nessa ultima terça descobrimos que Plutão é bem maior do que se imaginava, mas a maioria da população mundial se importa? Carl Sagan já dizia “Vivemos numa sociedade altamente dependente da ciência e da tecnologia, mas que não sabe quase nada disso". Essa frase define quão ignorantes somos com relação ao conhecimento em potencial. Na mídia o espaço é para reportagens que dizem em qual praia a famosa da vez foi ou em qual horário saiu para a sacada do Hotel ou ainda quem está "pegando". Não há espaço para divulgação de conteúdo pedagógico, mas há espaço para a dieta da moda. Vivemos num mundo onde o que é descartável e fútil tem audiência e se somos bombardeados com tais determinações, porque nós não seriamos fúteis?



O homem que citei lá em cima, o tal Carl Sagan não teve seu nome escrito na calçada da fama, não foi um Rockstar nem o imagino num tipico episodio de detonação de quarto de hotel, mas mesmo sem ser uma celebridade segundo os padrões foi um grande ser humano com cara de boa praça, sorrisão fácil, de voz eloquente e que esteve aqui nesse pálido ponto azul chamado Terra entre 1939 e 1996. Foi um dos maiores divulgadores científicos do século XX e o carisma em pessoa... Tá, eu sei eu pareço uma tiete, mas eu admiro Sagan com a mesma proporção que admiro o Pearl Jam, por exemplo. Na verdade o problema não é comigo, ele é um queridinho para todos que tem interesse pela ciência e/ou astronomia. O cara esteve em diversos projetos sobre a busca de vida extraterrestre e no envio de sinais humanos para propagação no espaço. Trabalhou na NASA durante os anos 50 participando do programa Apollo assessorando astronautas. Escreveu mais de 20 livros e diversas publicações, criou e foi narrador da Serie Cosmos: Uma viagem pessoal nos anos 80 levando a ciência a mais de 600 milhões de pessoas no mundo todo e hoje esse numero é muito maior devido as milhares de visualizações de seus videos nos canais do Youtube, em sites científicos e com a criação de Cosmos: Uma Odisseia no Espaço de 2014 sob a apresentação do grande físico Neil deGrasse Tyson, essa série é continuação da primeira. (Spoiler: no 1º episódio há uma curta, porém emocionante homenagem ao Carl Sagan)


Mas e aí interessa saber quem foi um cientista? Interessa saber algo sobre astronomia ou ler algum conteúdo cientifico? Eu não sei você, mas há muitas duvidas em mim, aliás há muitas perguntas que nós não temos respostas e que muita gente sequer faz a sí mesmo. A ciência está em busca dessas respostas, mas especificamente a astronomia porque quanto mais sabemos do universo, mas nos aproximamos de sua/nossa origem. 

Eu sei que há uma parcela da população que só quer orar a um dos milhares de deuses e agradecer por estarem aqui, mas independente da religião de cada um é preciso que todos percebam que assim como a espiritualidade é importante (para alguns) assim também é a racionalidade. Até mesmo para que se separe a questão da moralidade e o ser adepto de uma crença... pense num preconceito que não me entra, afinal eu sou boa gente mesmo sendo cética ué! =)

Se nas escolas as matérias de exatas fossem apresentadas de formas mais convidativas e que fosse co-relacionado seu uso e importância com o nosso descobrimento do universo, se além disso, fosse dado conteúdo ligado diretamente a astronomia e que cientistas fossem apresentados como grandes personalidades nós poderíamos ter gerações que diriam querer ser cientistas quando crescessem ao invés de desejarem ser modelos ou continuarem a escolher as profissões clássicas de médico, bombeiro e etc. Uma geração mais informada significaria uma geração que comete menos atos violentos, formada por pessoas mais humildes já que quanto mais sabemos da grandiosidade do universo mais compreendemos o quanto somos pequenos e como nossa existência é breve. Com essa percepção passamos a amar mais e agir de forma mais consciente com as demais vidas e quanto falo vida não me refiro só a humana. Quem aprende mais passa a ter atitudes ecológicas saudáveis, tem mais respeito pelos animais e por toda fonte de vida desse lugar.

A verdade é que os novos (para nós) 2.370 km de diâmetro de Plutão são mais valiosos que as reportagens sensacionalistas que visam a redução da maioridade penal, que a mentira que é comer alimentos detox ou que qualquer noticia relacionada a um famoso. O novo tamanho de Plutão nos remete ao nosso desprezo em saber sobre nossa própria origem e isso é um doloroso alerta.



Foi por meio desse vídeo que tive minha primeira experiencia com Sagan. Na época compartilhei em facebook, mandei para todos meus contatos do whatsapp e hoje nada mais justo que deixá lo aqui para que influencie de forma positiva mais alguém.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

1997 (Coração Dilacerado Parte II)




Em tributo a Renato Russo

O dia amanheceu gélido, o quarto estava sujo, bagunçado e completamente solitário porque ela já não estava na cama. Era um dia comum em que todos se apressavam para ir trabalhar e fazer aquilo que todos fazem quando não estão vivos, até mesmo ela que era regida por seu próprio tempo. No banheiro retirava lentamente os fios vermelhos da escova enquanto só pensava que mais tarde iria se divertir sob a trilha sonora que faz seu sangue ferver e que além da libertação ainda ia ter o Dado como companhia. Antes das 6hs Luzia já havia bebido dois copos cheios com Vodka, essa era sua espécie de café da manhã e ninguém saberia porque ela já estava profissional em apagar os vestígios de seu alcoolismo velado. Se bem que nem precisava esconder, pois vivia sozinha num Kitnet mal cheiroso no centro da cidade. Quem se importa com uma mulher que não tem passado? Os homens a viam e só enxergavam sexo como se ela não tivesse um cérebro ou voz. Como se seu corpo fosse seu único propósito de vida. Que pensamento lixo!
- Se não quiser trabalhar, tem uma fila lá fora de pessoas que querem seu lugar Pequena Sereia do subúrbio.
"Maldito capitalismo, sempre motivando pela ameaça" Pensou ela e ao invés de responder assim, disse apenas:
-Eu estou aqui, ok? Eu me atrasei mas eu estou aqui.
-Pois, vá deixar o pedido da mesa 5 antes que eles deem o fora por sua demora, Alteza.
Os diálogos enfadonhos eram sempre os mesmos. O chefe era um cretino que a tratava mal na frente dos outros e que vinha cheio de carinhos quando ninguém via. Porco nojento, pai de família, cristão devotado e um assediador nato. O lugar era ruim, mas ela não podia sair. Estava com dois meses de aluguel atrasado e se esquivava como podia do homem repugnante, mas não podia se dar ao luxo de sair. Lá pagava mal e ela ainda tinha que alternar com um segundo emprego, este por sua vez noturno que inclusive pagava melhor devido o grande volume de gorjeta, mas especialmente naquela noite não iria graças ao festival que aconteceria mais tarde e porque o dono do sorriso mais admirado estaria lá.
O Dado era o único amigo que Luzia possuía mesmo que não tivessem uma amizade que fizesse sentido. Estavam no meio termo entre casal e amigos se é que isso é possível. Mas a questão é que ela o considera amigo porque era o único com quem se comunicava e que sabia que ele estava realmente ouvindo. 
Os dois se conheceram em uma festa a três anos atrás, numa noite de bandas ruins e pessoas excessivamente bêbadas. Era festa de aniversário de um baixista de uma banda local que não agradou, para fugir do som que não combinava com seu gosto e sem querer voltar para casa a menina decidiu ir até a laje. As vezes a melhor companhia são as estrelas e ela tinha isso para sí desde criança. Lá além do frio cortante e de uma vista incrível de um céu aberto encontrou um rapaz solitário sentado com um olhar hipnótico.
-É melhor sair garota, cheguei aqui primeiro
-Cara, pode se matar aí que nem ligo. Vou só ficar quieta aqui.
-E bater uma aqui eu posso?
-Ai seu babaca. Você tem para onde ir não para fazer essas coisas?
Ele sorriu por ter conseguido a irritação que precisava. Ele sempre sorria de um jeito que fazia as pessoas o perdoarem pelo que tivesse dito ou feito.
-Que estranho.
-O que?
-Quando você sorriu não pareceu um idiota.
-Todos somos idiotas, dependendo da época nós só mudamos a intensidade disso ser perceptível.
-Ainda está sob efeito de drogas para falar de forma tão sincera, baby?

Uma gargalhada tomou de conta do local e ela sentindo os pés doerem sob as botas sentou ao lado dele.
-Acho que você não seja tão mal assim, cara.
-Posso ser pior, você tem que parar de criar expectativas de quem não conhece ruivinha.
-Luzia, ok? Não gosto de rótulos infelizes.
-Eduardo, mas pode chamar de Dado. Esse é meu rótulo e eu não fujo dele.
-Será que você é o Dado do Manfredini. Bem, então... “Dado, dado, dado / o que fizeram com você? Dado, Dado, Dado / o que fizeram com você?” disse cantando o refrão famoso.
-Quem chama o Renato Russo assim? Não fizeram nada comigo, nem todo mundo tem uma história triste para entretenimento alheio.
-Eu o chamo assim por achar mais íntimo...Que bom que não tem história triste, a minha talvez agora seja superar a morte dele.
-É foda, foi em outubro e a porra do álbum saiu agora em julho. Parece que foi ontem que li no jornal “AIDS mata Renato Russo”. Disse gesticulando muito.
-Quando eu comprei o LP, corri para casa, acendi uma vela e devo admitir que chorei algumas vezes...pô, eu amava aquele cara.
- As músicas desse álbum tem um pesar imenso. Minha predileta deles sempre foi Duas Tribos, mas quase perdi vontade de ouvi-la de novo, depois de Uma Outra Estação vir com canções tão noturnas e pô depois da morte do cara.
-Não existe uma realidade para mim onde eu não escute Legião.
-Você já ouviu grunge? Não existe uma realidade para mim onde eu não escute Nirvana.
-Ok, Yankee fique com suas canções internacionais que eu mergulho no Rock que eu entendo.
-Que patético, nada a ver essa de Yankee. Um dia você vai entender que Rock tem mais a ver com sentir do que com entender e outra, só o que tem é revista de cifra com tradução e tudo.
 Eles sorriram.
Naquela noite atravessaram o tempo falando sobre música, filmes, falando até da morte da princesa Diana, citaram livros envoltos por risos e hálitos regados a álcool. Ele era admirador dos Smiths, tinha uma queda por filmes com sotaque britânico e ela achava a Audrey Hepburn a mulher mais linda do mundo. Nunca uma noite no trágico ano de 1997 fora tão interessante para aqueles dois e eles nem transaram.
-Acorda garota, são 17:09! Vai atender aquela mesa antes de ir embora!
-Ah, já tô indo, já tô indo.
Luzia fez seu ultimo atendimento do dia, retirou o uniforme que odiava e foi o mais rápido que pode para casa. O banho gelado foi sob o som da voz de Eddie Vedder entoando Better Man numa fita K-7 em seu aparelho de som no quarto. Saiu do banheiro, pegou o vestido preferido e pensou na saudade de vibrar pelo Rock e na ânsia por encontrar seu Dado viciado.
Casa lotada, gente se divertindo e ele estava lá, mas não era o mesmo. Tinha olhos diferentes e uma sombra pairando sobre sí. Ela tentou o agradar, disse que ele estava uma delicia, tentou fazê-lo sorrir, mas ele só reagia ao que ela dizia. Beberam alguns drinks, jogaram olhares um para o outro e terminaram a noite sob a laje em silencio. Mais uma vez não transaram.

Na foto Audrey Hepburn porque ela tem os olhos da Luzia.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Três

Pela noite que cantamos juntos.
Pela noite que não devia ter terminado.


Há uma vida atrás éramos mais
O caos nos consumia e em troca nos dava sensação de paz
Sujeira por todo lado envoltos por palavras e pessoas vazias
Reconhecemos nos cheios e raros um ao outro
Um poeta punk ou um musico incomum?

Quantas nuances mais existirão em ti?
Será que uivas como dizem os rumores?
Nos paradoxos da vida nós fomos lançados
E mesmo com tantos fins e distancias descobrimos como voltar...
Há uma década atrás nós éramos tolos

Esboçando um sorriso bobo tentando esconder nossos erros.
Caminhávamos por ruas solitárias em busca de intensidade e vinho
E mesmo que não encontrássemos o que queríamos 
Sempre havia a beleza de estarmos juntos
E a lei que Einstein não refutou ainda nos atrai.
Falamos a mesma língua, vibramos a mesma batida até as duas da manhã se possível.
Quantos poderão sentir uma identificação instantânea
que mesmo com o passar dos anos não passa?
Lembro do teu olhar surpreso quando comecei a cantar Nirvana
acompanhando o teu violão numa tarde próximo a tua antiga casa.
"Ela sabe", falou teu olhar brilhante...
Lembro de ler todas suas resenhas e de sorrir de tamanha genialidade,
Lembro até das duas vozes ao telefone quase ao mesmo tempo...
E só a pouco eu soube que estavam juntos naquela noite.
Já faz dez anos e nós voltamos ao inicio de nossas vidas.
Cabelos cortados, faces amadurecidas, lábios pintados com sangue.
Eu te perguntei porque não é mais o mesmo
Você só respondeu que foi a vida...
Até calei por saber que ainda estou juntando meus pedaços por causa dela.
Me fale mais uma vez sobre não deixarmos de ser jovens

E afaste todas as chances da morte nos pegar.
Amigos não devem partir para outras dimensões. 
Há sempre mais uma noite que possa ser nossa
E eu preciso do teu jeito errado tentando fazer algo certo por aqui.
Tu bem sabes que eu criei o amor sozinha e ontem ele me mordeu,
Não podes evitar que eu sofra ou que não sangre
Mas pode colocar uma música e beber ao meu lado.
Vençamos as criaturas da noite juntos

Sejamos infinitos mais uma vez.




   Essa é a cena que dá luz ao filme Vantagens de Ser Invisível
na qual Charlie define que está se sentindo infinito...
Historia sobre uma amizade à três e conflitos da minha geração.
Filme baseado em livro publicado em 1999.

E se tudo tivesse sido diferente?

               


Texto escrito em 15/05/2015, momento registrado na noite de 23/05/2015
e sentimento existente desde 1988.
            
         As vezes olho o futuro e ele me parece um labirinto imerso em nevoa. Prefiro o passado, lá é como um lugar acolhedor onde costumo ir para tomar um bom café, revisitar pessoas queridas e saborear piadas que já sei o final de cor, mas que sempre me fazem sorrir de um jeito diferente da forma que descrevi meu passado parece um episodio de Friends. A questão é que tem momentos que são tão bons que eu aperto repeat feito uma música que me vicia por semanas.
       Às vezes me pergunto se eu não estaria tão cansada se eu tivesse sido psicóloga, professora, escritora, jornalista ou tudo aquilo que eu quis ser um dia quando pequena. Quando ainda não entendia que Administração me garantiria um emprego e que dinheiro seria mais importante que prazer de ouvir, de ensinar ou de escrever. Pelo menos é o que o meu pai sempre diz e que eu nunca vou concordar.
       Vai ver eu teria um futuro completamente diferente se eu tivesse ganho dos meus pais uma máquina de escrever que eu tanto queria e se eles tivessem me colocado no mesmo curso de datilografia que meu irmão fez, ao invés de ganhar outra boneca. Vai ver se eu tivesse possuído livros em casa além da coleção de enciclopédias de capas grossas que ficavam na parte de cima da estante e que eu alcançava com dificuldade eu não citasse livros que li na biblioteca da minha escola como se tivessem sido livros meus. Recentemente me recordei de Caminhando na Chuva do autor Charles Kiefer e fui procurar em casa até me dar conta de que ele nunca foi meu assim como Os Miseráveis de Victor Hugo nunca foi e eu sofri tanto por ter que devolver. Como abrir mão de ler sobre meu querido Jean Valjean? Vai ver se eu não pudesse ler os quadrinhos do Calvin e Haroldo apenas na biblioteca do SENAI (eles não deixavam levar para casa) talvez tivesse um humor mais aguçado ou uma consciência do todo mais ampliada com dezessete anos, mas quem pode ter consciência ampliada com essa idade? Se bem que tem o Edu tão jovem e gênio e tem o Geo com uma empatia bonita de se ver e que sem dúvidas já devia ser evoluído com essa idade.
           Mas e se tudo fosse diferente? Se eu tivesse lido mais? Talvez não soubesse e amasse desenhar como amo. Talvez não tivesse visto tantos filmes nem achasse o Tom Cruise o homem mais cavalheiro do cinema. Talvez não tivesse o senso de humor que beira o nonsense. Talvez não tivesse me apaixonado por Legião Urbana aos doze nem pelo Pearl Jam aos vinte e quatro. Talvez não houvessem tantas lembranças lindas que ultrapassaram tempo e espaço junto da Raquel que me fez ser quem sou e que em agradecimento influenciei de forma doce. Talvez não tivesse sentado no fundo nas salas do Osires e não haveria de ter encontrado minhas companheiras de sonho e luz Adriana e Rosilange que como bônus trouxe uma amizade para mim sem igual como a do Alex. Talvez eu não tivesse frequentado a Igreja e como consequência não teria conhecido o Cícero e não existiriam conversas filosóficas na minha calçada na época que mais precisei delas. Talvez não tivesse dado a mínima quando o Vandemberg me falou que tinha uma banda e por ventura perderia de conhecer o Jerson, Wellington e depois o Wesley e com ele toda a poesia marginal iria pelo ralo. Talvez nunca aprendesse quanto é valioso apoiar a cena independente se não tivesse ido ao Bom Mix quando o TT me convidou a dois anos atrás e sem frequentar a cena não teria conhecido o Leo e acabaria por perder toda a evolução que ele me proporcionou. Talvez não tería sorrido e crescido tanto ao lado do Georgiano e do Alexandre nem chamado por amigo, o Diego. Talvez não tivesse admirado o Junior e sua Harmônico Vulgar, nem presenciado os silêncios mais doces do Denilton, nem feito análises do Jonas e do "seu" alcoolismo, que está mais para meu alcoolismo. Nem sequer tinha me divertido ao lado de tanta gente e conhecido bandas incríveis como a Radix, a Dr. Instinto e tantas outras das quais virei fã. E se não tivesse as mesmas oportunidades talvez não tivesse ido parar numa empresa onde passei três anos e que fez minha mente trabalhar quando ela só desejava parar e se eu não tivesse estado lá não teria conhecido a alegria da Lili, nem o charme da Mary, nem tinha afastado a Paula por preconceito, nem teria me encantado com ela depois de romper o preconceito por descobrir que nós somos a mesma pessoa... Muito menos saberia quão maravilhoso é compor um trio com ela e com o semi-nerd Iatã e hoje não estaria em uma outra empresa que encontrei outra Paula que se mostra cada vez mais um coração pulsante a bater junto com o meu igualzinho a Ligia que de fala fácil logo contagia a mim.
          Provavelmente se nada disso tivesse acontecido eu não teria tanta saudade da minha mãe porque estaria em outro lugar em vez de estar sentada ao lado dela durante a Sessão da Tarde nos anos 90. Talvez eu não tivesse tido uma segunda chance com meu pai e nunca olhasse para ele com o olhar de admiração que hoje possuo. Talvez até eu não fosse a madrinha da Yasmin e assim não teria o brilho luminoso do olhar de uma criança por perto uma vez que eu não tenho nenhuma intenção de ser mãe.
              Talvez sem tudo isso eu nem existisse.

Com amor,

Cristina Braga

"E se tudo tivesse sido diferente?
Restaria algo de quem você é hoje?"



P.S.: Queridos leitores a partir de hoje vou buscar postar os textos somente com ilustrações e pinturas para que fique claro que a bandeira que porto é a da arte. Todos os textos serão publicados aos domingos e eu aguardo cada um nessa minha pequena sala escura chamada de Feriados de Mim. Ah no domingo agora entrego a segunda parte do conto Coração Dilacerado. Espero que gostem e forte abraço.

domingo, 3 de maio de 2015

Coração Dilacerado

Aviso: Isso não é uma historia sobre o amor. 
Nem tudo é sobre o amor. Ok?






Ficção, only, ficção.

        Os boys estão com suas calças apertadas erguendo seus instrumentos, tirando som de suas espetaculares guitarras como se fossem Jimi Hendrix e as meninas estão gritando até perder a voz por traz de seus rostos perfeitamente maquiados. Quem estará com elas no fim da noite com rímel borrado e um vazio devastador? Quem ajudará a nós que só precisamos nos sentir vivos? “Erramos feito loucos e só queremos mais um gole da bebida que tu vende aí”, pensou Dado enquanto olhava para o barman.
 Que olhos são esses de demônio? Falou a menina da voz doce.
 Nada Luzia, estou longe pensando nas minhas guerras pessoais.
 Que merda, cara. Guerras vem com visões de carne dilacerada e isso é tão fora do eixo pra se pensar num festival.
 Quem sabe seja só isso que sejamos... Carne dilacerada? Corações dilacerados!
 Um puta titulo para uma banda. Encerrou a ruiva com o olhar mais irônico da noite.
         Antes que pudessem continuar a conversa deprê foram invadidos novamente pelo som da banda que iniciava sua apresentação. O Rock´n Roll ecoava por toda parte, pessoas frenéticas se moviam ao som ensurdecedor, menos o Dado que estranhamente celebrava o aniversário de morte do irmão. A cena imunda de um garoto de 17 anos desarmado de esperanças segurando um revolver ainda lhe assaltava as noites e como não poderia ser o canal sintonizado naquele dia? Nando era um garoto com uma timidez convidativa que não fazia nada que não soasse agradável. Era o queridinho de todos, colecionador de boas notas, atleta, participava de clube de jovens na igreja do bairro, ia fazer Medicina, mas nem tudo que a gente vê por fora tem o mesmo aspecto por dentro, não é? Nando não deixou bilhete, carta ou merda assim explicando o porquê. Foi um baque que arruinou toda a família. O Dado teve que sair de casa porque não suportava mais a perda do irmão e as comparações que sua mãe fazia. Ele se culpava por não ter compreendido o que o irmão não lhe dizia. Passou anos revisitando a infância e a adolescência para achar vestígio que pudesse justificar, mas não achou. Uns cinco anos depois quando um tio muito próximo descobriu ter câncer em seu estagio final ele foi chamado de volta pela mãe que precisava de ajuda para alternar nas noites de hospital. Numa dessas noites ouviu do tio em delírios palavras balbuciadas com dificuldade que chamaram sua atenção. Palavras que falavam de seu irmão suicida, antes deste o ser. Palavras, confissões que justificaram tudo. O irmão fora uma vitima do tio que sempre fora tão amável e correto, mas na verdade não passava de um pedófilo.
         Dado não derramou uma lagrima quando o tio morreu, mergulhou em drogas e se sentiu mal por não ter estado lá pra ajudar o Nando na maldita noite que significaria seu fim sete anos mais tarde. Esse inferno pessoal lhe o acompanhava por onde fosse, mas naquela noite foi interrompido...
 Dado! Dado! Hei você está uma delicia... devíamos sair juntos daqui hoje.
 É, não seria nada mal abrir até o fim o zíper do seu vestido, gata.
     Luzia levou a bebida até a boca desenhada em vermelho-sangue e ele fingiu estar completamente interessado. Assim era mais fácil esconder seu coração dilacerado.


Cristina Braga



segunda-feira, 20 de abril de 2015

Eu termino isso só



"Eu sei que nasci e eu sei que morrerei.
O entre essas duas coisas é meu.
Eu sou meu."


Aqui estou, mas não pertenço.
Onde muitos olham por suas janelas frias 
a banda passar na rua tocando 'Alegria, alegria"
Eu sigo com eles cantando, braços pro alto, dentes na rua.
Na sala de jantar aos domingos quem é livre ganha um rótulo,
mas o único rótulo que me interessa é o da cerveja que eu divido com quem eu quero.

E daí se a menina bonita não quer que a noite termine?
Se o moço anda de mão dadas com outro?
Impedir que toque a musica não vai fazer com que parem de dançar.
Eu aumento o volume, misturo as cores e não me atrevo
a não ser por completo tudo aquilo que eu sou.
Coleciono erros, coleciono amor
e independente da censura e do olhar julgador que me capture

Ainda repito para o espelho meu único limite:
-Eu termino isso só...
Mesmo que seja gentil deitar a cabeça em teu ombro,
Ter teus ouvidos para mim sóbria ou ébria.
Mesmo que seja doce andar lado a lado com amigos.
Viemos sós sem história traçada ou redenção alguma
E cada face amada irá se apagar da nossa frágil memória...
Velejamos por rios calmos, outrora desbravamos o mar sob tempestades
para atracar num porto que será o fim...
E tudo que é descartável reina absoluto.
De que vale todo o dinheiro se não pode me comprar nada que dure?
Pois nem mesmo eu posso durar.
Me fale de amor, pois o ódio é uma canção no radio que não para de tocar
Me conte tua história, me convide para entrar
Poderíamos trocas tintas e incrementar nossas cavernas.
Poderíamos aprender juntos que satisfação nenhuma preenche vazio
Não vou lhe entendiar com uma historia triste
Eu guardei a minha para ocasiões especiais
A pele está fresca para abrigar um pardal com uma asa quebrada
Cujo sangue a escorrer vem de minhas próprias veias
E eu vou amá lo enquanto me significar vida.
Eu fiz de um segredo minha unica redenção. Crie a sua!
Quantas vezes estaremos altos e quantas vezes estaremos no fundo do poço?
O que é real em meio a tanta ilusão?
Nos dias que suor e lagrimas parecerem água...é vida.
A incerteza é o imposto para se viver.
Somos galaxias e todo o brilho que cabe em teus olhos dão luz a estrelas
Abra mão de seu discurso. meu bem.
Não de seus sentimentos.
Eles são tudo o que você tem.



Cristina Braga

Na foto acima Eddie Vedder, frontman do Pearl Jam e mensageiro do amor  com citação de um trecho da musica I am mine. Abaixo canção na integra legendada.




"Então ela se afastou da pia em minha direção, 
olhou bem fundo em meus olhos e com o sorriso mais doce de todos, disparou:
-Eu pareço um pardal de asa quebrada. 
Eu sorri para acompanhar o sorriso dela, mas por dentro meu peito doeu quase como sentir não poder respirar "
2009 - Infinito

Paz e amor! Até a próxima!
                      



sexta-feira, 27 de março de 2015

Eu, o gosto do vinho e a maldita ressaca



Lembranças do fim de uma era sombria, uma noite de 2014


         O despertador alarmou, abri um olho e ví sobre mim o teto parado enquanto o restante do quarto todo girava. Eu ouvi um barulho ensurdecedor igual a um baterista incansável direto nos meus tímpanos que me fez levar as mãos a cabeça. "Maldita ressaca!" esbravejei. Abri lentamente os dois olhos e me virei para a esquerda com o intuito de levantar, mas não consegui. De repente senti na boca o gosto azedo do vinho da noite anterior que antes era tao doce. Foi uma noite louca cheia de amigos e Rock por toda parte, marca dos melhores sábados da minha vida. Em nossa roda boêmia falamos de tudo que atravessava nossas mentes, assuntos como bandas, musicas, super heróis, politica e ainda teve espaço pra rir de nossas limitações e rir das misturas que o carinha de outra cidade que estava alto fazia. Ele falava tanto que eu nem imaginaria que ia fuder tudo quando começasse a tocar com sua banda. A gente tem esse lance de subestimar pessoas e toda vez vem a realidade nos dando um soco direto na cara e sabemos que preconceito é uma merda, mas acabamos fazendo e até mesmo nos festivais que tem uma vibração anarquista acontece. Quantos não devem me ver por estereotipo de loira ou burra porque não paro de falar quando estou bêbada e desses momentos épicos obviamente surgem as perolas. Mas imagine quem não conversa comigo sóbria, quem não sabe o que me fascina ou o que defendo a sério. Deve ter uma galera que me defina pelo bom humor e não veja nada mais alem disso e por mais que seja engraçado é um saco deixar que fiquem e até mesmo que eu fique só na superfície. Bem, mas isso é uma questão que tomei pra mim e vai me influenciar por toda a vida e não tem muito a ver com a noite de ontem...a não ser pela minha expressão olhando para aquele cara e sua banda encarnando o Rock´n Roll bem a minha frente. "Que banda é essa? Que foda!", pensei.

           Todos estavam lá, desde a antiga turma à novos amigos, até um querido inimigo meu e ele tinha o mesmo ar superior que sempre me confrontava. Sabe, você tem que escolher bem seus inimigos, pois confrontos poderão ser travados por toda sua vida e por via de duvidas devem ser pessoas interessantes ou vai ser entediante. Ontem não houve atrito a não ser trocas de olhares e algumas fugas. Eu estou numa fase estranha e vê lo foi como olhar pra mim no fundo do poço, me causou desconforto, apesar de que não havia muita alegria dessa vez. Mais cedo havia entrado em conflito com meu boyfriend por uma incerteza de nos vermos e por minhas incertezas de continuar seguindo em frente. Eu queria resolver minha vida, mas até ontem não sabia como. Voltei em torno de 1hs da manhã sozinha.

              Me levanto da cama, o baterista continua na minha mente batendo cada vez mais forte, olho ao redor e estou lá como fonte única de vida. Meu pai viajou e a casa parece um imenso sarcófago. Pego o celular e começo a conversar com uma amiga, vou contar sobre o que houve, um convite recusado e uma angustia. Ela é incrível, me faz sentir bem e eu me pego de sobressalto pensando que porra é essa que estou fazendo. Queria resolver tudo, mas o cheiro da noite passada me tira o foco. Vou ao banheiro e tomo um longo banho, penso na merda que fiz e nas palavras que disse ao cara que mais se importa comigo e me sinto mal porque eu tinha dito que não sairia e acabei saindo. Eu estava tão confusa e mesmo assim saí e meu peito estava apertado porque no fundo eu sentia que aquela vida não era minha. Saí do banheiro, chorei, iniciei uma guerra, derramei tudo que sentia e coloquei fim ao caos.

            Em alguns dias escreverei "Agonia" sobre sentir de mais e estar a frente de alguém que não tem coração. O único poema rimado que darei vida será para acabar com a era sombria desses dias... Enquanto isso não acontece continuo aqui eu, o gosto do vinho e a maldita ressaca.





E nessa vibe de ressaca, álcool e sinceridade fiquem com a melodia de Trapézio da Pitty 

sexta-feira, 20 de março de 2015

Extremos

Eu quero a nevoa da serra
Tu queres vista para o oceano
Eu pego a mão da esquerda
Tu só caminhas pela direita
Eu aprecio arte
Tu só assiste Tv
Eu nem sempre sou boa
Tu condenas o mal
Eu não me limito a uma crença
Tu só considera a verdade que te deram
Eu me expando
Tu desapareces
Eu despedaço
Tu permanece intacta
Eu alço voo
Tu cria raízes
Eu espalho o vermelho
Tu exiges que seja tudo preto no branco
Eu abro janelas
Tu compra espelhos
Eu te convido para uma dança
Tu diz que não sabes dançar
Eu aumento o volume da musica
Tu muda a estação de rádio
Eu falo de amor
Tu discursas pelo ódio
Eu reconheço a vida como fonte do imprevisível
Tu tens planos definidos
Eu nem sei quem sou
Tu já tens sobrenome de outro
Eu defino meu corpo como um ponto de anarquia
Tu o etiqueta com um dogma.
Eu estou só
Tu também, mas escolhe não pensar sobre isso
Eu poderia amá la, mas tu se mantem ausente do tipo de pessoa que fez de mim...

E nenhum de nós estamos por completo errados.
Sabemos amar, mas não entendemos as ramificações do amor
Sabemos sonhar, mas invadimos territórios alheios com sonhos egoístas.
E o que nós não sabemos é viver em paz com todas as vendas que colocaram sob nossos olhos. 
Essas vendas que são maiores que a distancia que nos aprisiona.



terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Sangue Ruim



Nós temos sangue ruim
Uma necessidade de compartilhar algo todo o momento e quase nada serve.
Quem pode dizer que foi suficientemente amado?
Quem pode afirmar que foi um filho desejado?
Nós somos confusos porque tivemos ruínas como lar
Pessoas sem preparo, um mundo que não pode esperar
Criamos afeição por pessoas tão perdidas quanto nós
Fomos aqueles que se equilibraram no meio fio de ruas intermináveis nas madrugadas.
Amigos produzindo acordes em sábados incomuns.
Nós temos sangue ruim.
Somos classificados por cores, mas não somos lápis embora também nos desapontemos.
Nos alinham em escalas a qual não pertencemos
Nos encarceram em pontos periféricos onde não há investimento.
Quem pode olhar para sua historia sem desejar trocar algo?
Quem já não se sentiu no fundo do poço e escolheu não chorar?
Desenhamos nossas peles como quem decora uma casa.
Fazemos escolhas ruins sem notar que estamos em armadilhas prontas.
Sente quão gélida é a noite nas ruas vazias de empatia?
Toda a ingenuidade e pureza não sobrevivem a fotografias velhas
Vivemos do caos e não temos um cais para atracar,
Mas nós escolhemos não chorar
Porque vemos a realidade além dos noticiários
Vemos os troncos das arvores balançando...um calmante.
Vemos as folhas caindo fora do tom
Nós estamos famintos por esperança enquanto ela escorre por boeiros.
Não somos ratos, não espalhamos doenças.
Trazemos conosco uma verdade bruta.
O incomodo de seguir em frente num campo minado.
No lugar onde pessoas ávidas acompanham cotações monetárias
de que vale acompanhar a mudança de estações?
Nós damos atenção a profundidade, nós questionamos teus motivos para duelar.
Mas somos nós que temos sangue ruim,
Se for assim não venha purificar
Somos melhores que todos aqueles senhores fedendo a naftalina
Cercados por todo o poder sem ter a capacidade de sonhar.
Somos raros numa realidade ordinária
E enquanto houver o que compartilhar não se assuste
Se pedras atingirem janelas de grandes casarões...
É só uma forma agressiva de dizer:
Desejados ou não aqui estamos,
Viemos modificar a pauta, invadir os muros, as ruas e o faremos por onde for...

Quem tiver ouvidos que ouça:
Até mesmo nós...as cinzas viemos falar de amor.


Foto originária de um ensaio chamado Tempo de Guerra onde o fotógrafo buscou inspiração na definição de Caos do poema Metamorfoses de Ovídio